- Missionária atuava na luta pelo assentamento de trabalhadores rurais e foi assassinada a tiros por ordem de fazendeiros locais – mandantes chegaram a ser presos, mas foram beneficiados com o regime semiaberto; desde a época do crime (2005), pelos menos 20 pessoas foram assassinadas na cidade, entre lideranças, sem-terra, assentados e trabalhadores rurais
- Ontem (17/04), antropóloga Manuela Carneiro da Cunha, ex-ministro dos Direitos Humanos Paulo Vannuchi e ex-secretário de Justiça Belisário dos Santos Jr., membros da Comissão Arns, estiveram presentes no acampamento realizado na Curva do S, em Eldorado dos Carajás, para acompanhar o evento que lembra da chacina de 1996 na qual 21 trabalhadores rurais foram mortos
- Ainda na segunda-feira (17/04) , foi realizada conversa com indígenas Parakanã, em Marabá, para apurar episódios de violência e ameaça que os habitantes das aldeias, localizadas entre os municípios de Nova Repartição e Itupiranga, vem sofrendo há quase um ano
São Paulo, 18 de abril de 2023 – A Comissão de Defesa dos Direitos Humanos D. Paulo Evaristo Arns – Comissão Arns estará na cidade de Anapu, no Pará, nesta terça-feira (18/04), para conhecer o assentamento Irmã Dorothy Stang. O local, oficializado pelo Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) no ano passado, ocupa a área onde a missionária norte-americana Dorothy Stang foi baleada e morta em 2005 a mando de fazendeiros. A vítima é referência na luta pelo assentamento de trabalhadores rurais.
As ações fazem parte da programação da viagem de quase uma semana da Comissão Arns ao Pará. Os integrantes da organização chegaram no sábado (15/04) e passaram por Marabá e Eldorado dos Carajás. O roteiro a territórios marcados pela violência no campo e pela negligência estatal segue nos municípios de Anapu, Altamira e Belém.
27 anos da chacina de Eldorado dos Carajás
Na segunda-feira (17/04), a Comissão participou de um ato no Acampamento Pedagógico da Juventude Oziel Alves, em Eldorado do Carajás, para homenagear os 21 trabalhadores rurais que foram assassinados por policiais militares na região em 1996. Organizada pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), a homenagem marca os 27 anos do crime, que ainda não foi completamente solucionado.
A manifestação aconteceu na Curva do S, local onde ocorreu o massacre, e recebeu integrantes do MST, da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e de outros movimentos e organizações da sociedade civil.
No local, a delegação da Comissão Arns conheceu o Memorial do Massacre dos Sem Terras, onde há uma cruz de madeira que simboliza o crime e uma placa com os nomes de todos os mortos. Em seguida, visitou a Casa da Memória do Massacre de Eldorado do Carajás, espaço idealizado pelo padre Luigi Muraro. Anteriormente, o imóvel era a casa de uma senhora que abrigou crianças no dia do massacre para que não fossem atingidas pelos policiais. O local conta com documentos e fotos deste e de outros casos do sul e do sudeste do Pará, como a chacina de Pau D’Arco e a morte do sindicalista José Dutra da Costa, o Dezinho.
Terra Indígena Parakanã – violência e ameaças
Ainda na segunda-feira (17/04), a delegação da Comissão Arns recebeu os relatos do povo indígena Parakanã. As 28 aldeias estão localizadas entre os municípios de Nova Repartição e Itupiranga e somam mais de 1.500 habitantes. Há um ano, três jovens não indígenas foram encontrados mortos dentro do território e, desde então, moradores de Nova Repartição, município onde os rapazes moravam, vem acusando e hostilizando os indígenas, com ameaças de morte e até violência física.
De acordo com os relatos das vítimas e do advogado do grupo, os indígenas estão acuados nas aldeias, uma vez que não podem ir mais ao município por medo de represálias. No entanto, é na cidade que eles resolvem questões de benefícios sociais e de saúde. Alguns deles estavam cursando ensino técnico em Nova Repartição e tiveram de suspender os estudos. Além disso, muitos professores do Ensino Médio que atuavam nas aldeias, assim como técnicos de enfermagem, deixaram o local.
No próximo dia 24 de abril, um ano do crime, está sendo organizada uma manifestação de familiares dos rapazes que foram encontrados mortos. Eles pretendem bloquear a Rodovia Transamazônica. O povo Parakanã está apreensivo com a possibilidade de ataques violentos contra eles em razão do protesto.
Sobre a Comissão Arns
Criada em fevereiro de 2019, a Comissão de Defesa dos Direitos Humanos Dom Paulo Evaristo Arns – Comissão Arns busca dar visibilidade e acolhimento institucional a graves violações da integridade física, da liberdade e da dignidade humana, especialmente as cometidas por agentes do Estado contra pessoas e populações discriminadas – como negros, indígenas, quilombolas, pessoas LGBTQIA+, mulheres, jovens, comunidades urbanas ou rurais em situação de extrema pobreza. A Comissão Arns trabalha em rede com outras organizações sociais, para detectar casos, dar suporte à denúncia pública dos mesmos, encaminhá-los aos órgãos do Judiciário e organismos internacionais, promover ações específicas junto à classe política e mobilizar a sociedade.
Em seu nome, a Comissão destaca a figura de Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns (1921-2016), Arcebispo Emérito de São Paulo. Em 1972, Dom Paulo criou a Comissão Justiça e Paz de São Paulo, porta aberta no acolhimento das vítimas da repressão política e policial no país. Ao homenageá-lo, a Comissão reconhece esse exemplo de resistência, resiliência e, sobretudo, de esperança para os brasileiros em tempos difíceis.
