Convivência democrática diminui violência nas escolas

Pesquisadoras alertam para falta de diálogo e respeito à diversidade

Por Carolina Pimentel – Repórter da Agência Brasil – Brasília

O país se deparou nesta quarta-feira (5) com mais um ataque a escolas. Em Blumenau, um homem invadiu uma creche em Blumenau (SC) e matou e feriu crianças. A Agência Brasil entrevistou especialistas para entender os motivos que levam à violência contra as escolas.

Para as pesquisadoras, a percepção equivocada da violência como solução para problemas e a falta de políticas de incentivo ao diálogo podem ser encaradas como gênese desses problemas. Além disso, a falta de respeito à diversidade e a propagação de grupos de ódio também estão entre fatores que compõem o panorama brasileiro. A prevenção e o controle desses atos passam pela adoção de programas que promovam a convivência ética e democrática dentro e fora das escolas. 

A professora da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Luciene Tognetta ressalta que as políticas devem ser construídas a partir de estudos liderados pelas universidades e em parceria com profissionais que lidam com o ambiente escolar diariamente. “Não existe algo a curto prazo, e sim a longo prazo e não somente na escola. É todo o sistema de proteção onde a escola está inserida. É preciso que as pessoas que estão no chão da escola pensem em soluções junto com a universidade. O professor não sabe o que fazer em convivência”.  Segundo ela, o acompanhamento das ameaças precisa ser constante, e não apenas em momentos críticos.

Combate às redes de ódio

Coordenadora do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral (Gepem), Luciene Tognetta afirma que as escolas estão entre os alvos preferenciais porque concentram um grande número de pessoas e porque os ataques são seguidos de grande visibilidade. “O ato contra uma escola causa muita repercussão e onde vai conseguir executar o plano com precisão. Além disso, a escola é um lugar de convivência, por excelência, onde irei encontrar o outro, o diferente”, diz a docente de pós-graduação da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp. 

A coordenadora do Programa de Estudos e Políticas sobre Juventude, Educação e Gênero: violências e convivência da Faculdade Latino-Americana das Ciências Sociais (Flacso), Miriam Abramovay, destaca que as narrativas racistas, misóginas e de ódio têm cada vez mais ganhado aderência entre jovens, tornando-se urgente o combate a essas redes. “A gente está falando aqui de crimes de ódio. Por que esses jovens têm esse ódio? O que está acontecendo com a nossa juventude? Por que acumular tanto ódio pela escola? Por que querer matar? São todas essas perguntas que vamos ter que responder, o mais rápido possível, para que não tenham mais massacres dentro das escolas”, afirma. 

Valorização da violência 

As especialistas avaliam que o cenário do país, nos últimos anos, com políticas de incentivo ao uso de armas, desinvestimento em programas focados na diversidade e polarização política favorecem o ambiente para atos de violência. A doutoranda em Educação pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e pesquisadora de violência escolar, Danila Zambianco, aponta que os ataques estão relacionados ao fato de a violência ser vista, por alguns, como uma estratégia eficiente para resolver conflitos e uma forma de empoderamento dentro da sociedade. “São muitos fatores que levam a esse efeito. Entre eles, a banalização da violência, a valorização da violência, o uso dela como estratégia para resolução de conflitos. Vimos isso com representantes do Poder Público que enalteceram a violência como estratégia, como meio, e o enfraquecimento das políticas de diversidade o que, infelizmente, enfraquece o diálogo para construir as relações interpessoais”, aponta.

Convivência democrática

Da mesma forma em que apontam que os fatores para um atentado à escola são complexos, as especialistas destacam que a prevenção desses crimes não ocorrerá isoladamente, exigindo a adoção de uma série de ações governamentais e da participação da sociedade. “Não basta acreditar que colocar um policial armado na escola vai resolver o problema. Já tivemos casos em escolas cívico-militares, por exemplo. Em Aracruz, a escola estava trancada com cadeado. Não se trata só de uma segurança, de trancafiar as nossas crianças. A gente tem que fazer políticas públicas de promoção da convivência democrática e criar uma sociedade onde as pessoas possam conviver, dialogar, onde a violência não seja tolerada, não seja exaltada”, ressalta Danila Zambianco.

Diagnóstico nacional

Miriam Abramovay defende um diagnóstico nacional para entender o que ocorre dentro das escolas e a capacitação dos profissionais de educação para o debate do tema. “Tem que ter um grande diagnóstico para saber o que está acontecendo dentro das escolas. A gente não sabe e nunca teve. Segundo, temos que ter projetos de convivência escolar, programas que sejam federais, estaduais e municipais. Dentro dos programas de convivência escolar, temos que ter capacitação dos professores, diretores, pais sobre esses temas”.

Governo Federal liberará R$ 150 milhões para ampliar rondas escolares

Ministro disse que 50 policiais vão monitorar ameaças na internet

Por Pedro Rafael Vilela – Repórter da Agência Brasil – Brasília

O ministro da Justiça e Segurança Pública, Flávio Dino, anunciou a liberação de R$ 150 milhões para ampliar as patrulhas escolares em todo o país, em meio à onda de ataques a escolas e creches. Na tragédia mais recente, ocorrida na manhã desta quarta-feira (5), em Blumenau (SC), um homem invadiu a creche Cantinho Bom Pastor, matando quatro crianças e ferindo pelo menos outras três. A Polícia Civil catarinense informou que o autor do atentado foi preso após se entregar na central de plantão policial da região.

“O valor incialmente é de R$ 150 milhões, do Fundo Nacional de Segurança Pública, [destinados a] estados e municípios que detêm a competência constitucional para fazer esse patrulhamento ostensivo. Os editais devem ser publicados na semana que vem”, informou Dino em entrevista no Palácio do Planalto, após se reunir com o presidente e outros ministros. As rondas escolares correspondem ao policiamento ostensivo realizado pela Polícia Militar ou Guardas Civis nas portas e arredores de unidades escolares e creches, como forma de reforçar a segurança pública nesses locais, que concentram grande circulação de crianças e adolescentes.

Outra medida da pasta é intensificar o monitoramento de ameaças e planejamento na internet de ataques a escolas. De acordo com Flávio Dino, 50 policiais federais passarão a monitorar exclusivamente esse tipo de crime, a partir de uma central da da Divisão de Operações Integradas (Diop), vinculada à Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp) do ministério, em apoio direto às polícias estaduais. Até então, eram 10 policiais envolvidos neste trabalho. No último dia 27 de março, a professora Elizabeth Tenreiro, 71 anos, morreu após ser esfaqueada na Escola Estadual Thomazia Montoro, no bairro Vila Sônia, em São Paulo. O adolescente responsável pelo ataque foi apreendido.

Grupo de trabalho

Um grupo de trabalho interministerial também será criado por decreto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, sob coordenação do Ministério da Educação. Segundo o titular da pasta, Camilo Santana, o grupo envolverá ainda os ministérios da Justiça e Segurança Pública, Saúde, Esporte, Cultura, Comunicações, Direitos Humanos e Secretaria-Geral da Presidência.

“Esse decreto criando esse grupo de trabalho [é para que] possamos ouvir os secretários de educação, prefeitos, especialistas, e a gente poder construir políticas de prevenção à violência nas escolas, que possam garantir não só prevenção, mas ações imediatas e concretas”, afirmou Santana. Ele disse que entrou em contato com o governador de Santa Catarina, Jorginho Mello, prestando solidariedade e colocando à estrutura do governo federal no caso.

Com duração inicial de 90 dias, o grupo deverá propor medidas diversas, incluindo eventual edição de decretos e projetos de lei de enfrentamento a esses crimes. Um dos focos poderá ser mecanismos de regulação da internet, onde proliferam grupos de ódio que estimulam esse tipo de atentado. “No Brasil, nós temos uma intensificação nos últimos anos e aí, obviamente, na medida em que há a intensificação da violência, é preciso ampliar as medidas públicas e privadas que deem conta dessas tragédias, como esta terrível, infelizmente, que vimos hoje em Blumenau”, destacou Dino.

Cultura de paz

O ministro da Justiça ainda defendeu o envolvimento de meios de comunicação e entidades privadas e da sociedade civil em uma grande mobilização nacional em favor da cultura de paz, que inclua, por exemplo, a adoção de protocolos em casos como esse, para se evitar uma exposição excessiva dos autores desse tipo de atentado, que buscam justamente os holofotes. “Precisamos de regulações governamentais, em nível de decretos, projetos de lei, mas nós precisamos também da chamada autorregulação, protocolos. Eu, particularmente, acho que uma mega divulgação de exposição, cartas, documentos, e-mails e imagens acabam estimulando que outras pessoas repitam esse procedimento, porque funciona como uma espécie de gatilho”, observou.

Via Agência Brasil

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