Às vésperas do primeiro turno, governador tampão reforça discurso de independência, mas histórico político mostra anos de aliança, apoio e atuação conjunta com o ex-governador
Nos dois últimos debates do primeiro turno, realizados pela TV A Crítica e pela Rede Amazônica, Roberto Cidade adotou uma estratégia clara: reforçar que seu governo teria identidade própria e tentar separar sua trajetória política da de Wilson Lima.
No debate da TV A Crítica, na segunda-feira (28), ao ser questionado por David Almeida sobre a relação com o ex-governador, Cidade foi direto: “Eu respondo pelo meu governo, pelo meu trabalho, pela minha dedicação e você está falando do Wilson Lima. Eu respondo pelo meu CPF, pela minha história de vida”.
A fala, porém, contrasta com um histórico de proximidade política que não começou agora — e que foi construído ao longo de anos.
A parceria entre Cidade e Wilson ganhou força justamente durante um dos períodos mais turbulentos do governo estadual: a pandemia de Covid-19. Em 2020, Cidade votou pelo arquivamento do processo de impeachment contra Wilson Lima. O resultado foi de 12 votos pelo arquivamento, seis contrários e cinco abstenções.
A relação avançou ainda mais quando Cidade chegou à presidência da Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam).
Em janeiro de 2024, por exemplo, enquanto ocupava interinamente o Governo do Amazonas, Cidade declarou publicamente alinhamento com Wilson e afirmou que, com o retorno do governador, voltaria à presidência da Assembleia para dar continuidade ao trabalho conjunto.
E a parceria não ficou restrita aos discursos institucionais.
Em 2024, Wilson Lima assumiu publicamente a candidatura de Roberto Cidade à Prefeitura de Manaus. No lançamento da pré-candidatura, o governador declarou que precisava de Cidade no comando da Prefeitura.
Durante a campanha, Wilson participou inclusive de caminhada e bandeiraço ao lado do então candidato.
O próprio Cidade, naquele momento, não escondia a proximidade. Ao responder às críticas sobre o rompimento político entre Wilson e David Almeida, afirmou: “Eu não rachei nada. Quem rachou foi o David. Foi ele que rachou com o Wilson”.
Ou seja: quando a aliança era politicamente conveniente, a parceria com Wilson Lima era pública, assumida e utilizada eleitoralmente.
Agora, diante da alta rejeição ao nome de Wilson Lima pela população e quando questionado pelo adversários, a mensagem de Roberto Cidade é outra: “eu respondo pelo meu CPF”.
O histórico, entretanto, não cabe em uma frase de debate.
Cidade e Wilson estão no mesmo grupo político, no mesmo partido e dividem alianças estratégicas.
Wilson apoiou a candidatura de Cidade à Prefeitura de Manaus em 2024, enquanto Cidade ocupava a presidência da Aleam e mantinha uma relação política próxima com o então governador, impedindo inclusive, que CPIs contra Wilson prosperassem.
A tentativa de estabelecer uma fronteira entre os dois ganha força justamente na reta final do primeiro turno, quando a ligação com Wilson passou a ser explorada pelos adversários nos debates.
O CPF pode ser de Cidade. Mas a história política dos dois não começou agora — e os registros públicos mostram que, durante anos, eles caminharam do mesmo lado.
Agora, resta ao eleitor avaliar até onde vai a distância que Roberto Cidade tenta estabelecer entre sua própria trajetória e a do ex-governador Wilson Lima.
