Escassez e abundância: o ciclo vicioso da água nos instiga ao desafio de renascermos como civilização antes de nos extinguirmos como espécie

*Ricardo Young

Na última semana, estive na Conferência da ONU sobre a água, em Nova Iorque, encontro que se propôs a decidir quais ações conjuntas entre países serão necessárias para o atingimento das metas internacionais acordadas sobre o tema, incluindo os objetivos presentes na Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável.

O resultado mais comentado da Conferência foi o lançamento da Agenda de Ação da Água, que representa o comprometimento voluntário de todos os níveis, governos, instituições e comunidades.

Para além do que foi discutido durante os dias do evento e do lançamento da Agenda, a Conferência, que não acontecia há quase 50 anos – a última foi em 1977, em Mar del Plata, na Argentina – me inspirou à construção do raciocínio a seguir, com o qual abri um debate com um grupo seleto de especialistas em questões hídricas, durante evento promovido pela TyQuant, em São Paulo, sobre como enfrentar o ciclo vicioso da água: escassez e abundância.

A sociedade civil vê a água como direito, os povos originários como sagrada, as empresas como mercadoria, o agronegócio como insumo, os governos como obrigação e risco político, a academia como uma possível ciência. E a água, candidamente, é antes de tudo inefável. É a essência da vida. É, sobretudo, a base de um ecossistema pleno, saudável e de uma sociedade sustentável. Por conseguinte, o tema da água só pode ser tratado de forma holística, integrado e planetário.

A água está para o debate multilateral hoje como estava o carbono na década de 2000. Podemos considerar o protocolo de Kioto como a primeira iniciativa internacional. Mas, foi em Copenhague, em 2009, que o compromisso sério de engajamento dos países para a redução do carbono foi tentado e, finalmente, em 2015, o mundo amadureceu em torno dos NDC e dos ODS.

A diferença é que os gases de efeito estufa são causadores do aquecimento global e a crise hídrica é uma das suas principais consequências. Por mais que se fale em mitigação e adaptação, a mudança dos regimes de chuva, a acidificação dos oceanos, a elevação do nível dos mares, a contaminação dos rios e lagos com pesticidas, a poluição dos corpos d’água com microplásticos e muitos outros fenômenos a que acometemos os recursos hídricos não serão resolvidos nem no tempo, nem através dos mesmos mecanismos utilizados pelo carbono.

Mais do que o carbono, passível de regulação em suas emissões nacionais, a água desafia os conceitos estruturais de soberania. Daí o paradoxo: como essência à vida, é um bem comum cuja dinâmica não obedece a fronteiras nem a métricas convencionais. Necessitamos reconhecer a urgência de nos dobrarmos ao imperativo de uma economia regenerativa, alicerçada em Soluções Baseadas na Natureza (as SBNs), única capaz de restaurar o equilíbrio ecossistêmico para que a água, na sua escassez ou abundância, não se torne mais um terror a assolar a humanidade. Imaginem, a essência da vida tornando-se a sua principal ameaça.

Como uma das mais letais consequências da crise climática, temos que assumir este como um desafio para diversas gerações a nos convocar, desde já, a acelerar processos regenerativos, ao mesmo tempo em que trabalhamos na mitigação das causas do aquecimento global.

O melhor da ciência, do conhecimento ancestral e da biomimética serão necessários para impulsionar a regeneração. Temos que, humildemente, reconhecer que apesar das assombrosas conquistas da engenharia pesada não será ela isoladamente que dará as respostas. Até porque estamos falando em um direito sagrado à vida, em regeneração de ecossistemas, em reflorestamento em grande escala, em resgate da diversidade biológica, campos estes em que, comprovadamente, as soluções cinzas não têm contribuído, a não ser marginalmente.

Podemos concordar ou não, mas a verdade é que antes de nos extinguirmos como espécie, temos a oportunidade de renascermos como civilização, de nos reconectar com a vida e nossas origens, resgatar a sabedoria ancestral que tanto renegamos, rever nossos valores e o sentido existencial de nossa humanidade. Não podemos jamais desmerecer nossa evolução, mas necessitamos da humildade de entendermos que, ao eleger a natureza como algo a ser conquistada, perdemos a oportunidade de aprender com ela. Ao saquearmos a terra, a vida, as florestas para forçarmos escalas de produção, perdemos a oportunidade de compreender a generosidade, a abundância deste planeta.

É claro que a tecnologia de ponta será necessária, assim como a nanotecnologia, a microbiologia, a genética e tantos outros conhecimentos de ponta. No entanto, o que faz a expertise não é a excelência da ferramenta, mas é a qualidade do artesão. Sem uma total mudança de mentalidade e uma reconciliação profunda com a natureza livre e selvagem, não daremos as respostas necessárias.

Se nossa tecnologia apenas baseada na física e nas ciências representassem evolução, não nos encontraríamos onde estamos: de que vale termos superado doenças, distâncias, barreiras temporais, gravidade e outros feitos assombrosos se não conseguimos garantir os pilares e princípios que permitem a vida no planeta? Cuidamos da fachada e do jardim, enquanto as estruturas de nossa casa estão ruindo. O milagre da vida está comprometido e, diante deste, nenhum feito é de fato relevante no longo prazo.

É da vida que temos de cuidar, é da comunidade de vida que temos de zelar. Guardiões da vida, essa é a melhor potencialidade da espécie humana.

*Ricardo Young, empresário, sócio-diretor da CT&I e da Byocoin Serviços Ecossistêmicos, conselheiro da Synergia Socioambiental e em diversas organizações, palestrante internacional e pesquisador-convidado no programa Cidades Globais do Instituto de Estudos Avançados da USP

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